quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

O meu Natal

Quando eu era criança, o meu avô, na véspera do Natal, acendia uma fogueira no quintal. Era uma fogueira grande! Não havia a tradição da ceia de Natal. A seguir ao jantar, as mulheres juntavam-se na cozinha da minha avó e faziam os fritos, os homens ficavam à conversa, grelhavam petiscos nas brasas da fogueira e guardavam as crianças para que não se aproximassem do lume.  Eu ajudava na cozinha, conforme podia, conforme a idade. Quando os fritos estavam feitos, bebiam café de borra e comia-mos cuscorões e velhoses, sentados perto da fogueira. Não podia faltar o abafado  uma bebida parecida com a jeropiga , e um bolo muito bom, do qual não sei o nome nem a receita, só me lembro que gostava muito. Depois, mandavam-nos para a cama e deixavam-se ficar à conversa. Pela janela do quarto conseguia ouvir as vozes de quem passava pela estrada, vindos da missa do Galo, do forte boa noite que da estrada era atirado para dentro dos muros do quintal ... da resposta e do convite para o café de borra aquecido nas brasa da fogueira. E eu deitada, a sonhar com os presentes do dia seguinte, a sonhar com o dia em que seria crescida o suficiente para ficar com eles a beber café e a conversar.
No dia seguinte, eram as prendas que nos tiravam cedo da cama. Eu recebia muitas, não me lembro de alguma vez ter feito uma lista de presentes, mas acertavam sempre, estava lá tudo o que eu desejava. Depois corria para ver a fogueira e procurar brasas ainda acesas. 
Vestia-mos roupa nova e almoçava-mos em casa dos avós, a sala era pequena para todos, mas todos cabiam e havia sempre batatas fritas em azeite, ... estranhos os detalhes que a nossa mente guarda =) .
A minha avó morreu no dia de Natal, o meu avô nunca mais acendeu uma fogueira e os natais passaram a ser em casa dos meus pais.
Estávamos na década de oitenta, mas parece que foi noutra vida, parece que já passou tanto tempo.

Há dias, andava ás voltas no shopping, no desespero das últimas compras, a pensar em como não queria  estar ali, a pensar no quanto detesto as músicas de Natal, os embrulhos, os enfeites e as ceias fartas do Natal. Se pudesse, apagava esta época do calendário.  Ai apagava mesmo!! 
Depois fomos para a casa da terra, acendemos o forno e fizemos pão e assados para a ceia ... e bolos e fritos. Á meia-noite os miúdos abriram as prendas, houve sorrisos, espantos, e uns olhares com brilhos lá dentro. De repente o Natal fez sentido! De repente desejei voltar a ser criança, para voltar a sonhar com o dia em que seria crescida, para ficar à conversa no conforto da fogueira. 



Para o ano faço uma fogueira, fica prometido!!


domingo, 27 de novembro de 2016

Fim de semana na Cozinha

Um dos prazeres que o desemprego trouxe, foi a cozinha! E se antigamente, o tempo era curto para fazer uma sopa rápida, agora dá para muitas e doces experiências ... e eu aproveito-o bem. Não sou bem  uma cozinheira, sou mais uma doceira, pois é nos doces e nas sobremesas  que me deixo levar pelo entusiasmo. Talvez o entusiasmo se reflicta nos "n" quilos que ganhei logo a seguir ao desemprego, em que n = muitos .

Este fim de semana foi em cheio!
Comecei no sábado logo de manhã com uma espécie de bolo rainha, especialidade cá de casa ... não é mais do que uma massa de pão brioche onde depois de levedar, adicionei vinho do Porto, frutos secos a gosto (200g de passas, amendoas, avelãs, nozes) e raspa de laranja, formar a coroa, deixar levedar mais um pouco e vai ao forno. 


Hoje, continuei com outra receita, a tarte de maçã "copiada" do blogue da Pinta, que já aguardava há alguns dias que eu fizesse iogurtes, pois estava nos ingredientes. Claro que entre o Bolo Rei e a Tarte de Maça, fiz iogurtes e também fiz pão; 


E já que o forno está quente vamos também fazer uns Húngaros, receita nova,  ainda estou em dúvida entre esta receita e a minha de sempre, mas não está mal !


Hoje tinha prometido a mim mesma que ia sair de casa, mas com o marido fora e os miúdos entretidos no computador, nem dei pelo tempo passar. Sinto que nesta altura da minha vida  o meu maior problema é combater esta vontade imensa de me deixar ficar em casa. 

E assim se desperdiçou um dia magnifico de sol, mas quando estou na cozinha o tempo corre de forma diferente e nem dei por ele.

Agora, espera por mim um chá quente e uma lareira acesa.  




sábado, 19 de novembro de 2016

Diário da horta - continuação

Só  voltámos à horta no fim de semana passado, o que confirma a minha convicção,  nunca conseguiria-mos ter uma horta só nossa.
Estava tudo feito!
A azeitona apanhada, limpa de folhas e já entregue no lagar de azeite.

Cumprir todas as burocracias exigidas legalmente, mesmo para quem tem uma horta para consumo familiar, é uma aventura. Facturas?!?! Guias de transporte?!?! Cursos para poder sulfatar ... Estamos a falar de hortas particulares, que apenas servem para produzir umas couves "lá para casa". No lagar de azeite, já avisaram que para receberem azeitona precisam de facturas! E sobre o assunto não comento mais, que de tão caricato que me parece, só pode ser confusão. Vou pesquisar mais.

No primeiro diário da horta, mostrei fotos dos produtos que trouxe para casa, hoje deixo as fotos da horta.

Algumas das cebolas, assim, aguentam um ano.

Quando chove, não se consegue entrar na horta, estes regos de couves estão  na entrada do terreno para os dias de chuva.

Existem muitas árvores de fruto no terreno, muitas laranjeiras. Chegam para nós e para oferecer a outros familiares e vizinhos. Mesmo assim, muitas laranjas estragam-se, acho que está sobre dimensionado para  o nosso consumo. Mas o planeamento não foi meu  =)

Couves e bróculos - outro exagero! comemos nós, os vizinhos, as galinhas ... 

diversos =)
Armadilhas para as moscas, cada árvore tem 2 ou 3 garrafas destas para apanhar as moscas africanas que estragam a fruta. O que vêem dentro da garrafa são moscas, milhares delas. Alguém me dizia que as outras moscas "vulgares" que também são apanhadas nestas armadilhas afinal são úteis na horta para combater alguns tipos de pragas. Não sei qual a veracidade desta informação ?!

Feijão verde, os últimos, já com as sementes maduras, são descascados e comem-se como o feijão normal. Chamam-lhe o feijão da horta, tem um sabor mais amargo e é mais duro. Eu não gosto.

Pimentos

Dióspiros, agora com a chuva já devem estar todos estragados, é pena, porque ainda tinha muitos.

Temos uns terrenos semi-abandonados, entregues aos vizinhos que aproveitam o pasto para os animais e foi aí que me lembrei: e se fizesse uma seara de trigo? Ando a matutar nesta ideia, já me disseram para não pensar nisso sequer. O problema é moer o trigo para fazer farinha, já não existem moinhos. Produzir a minha farinha era ser quase independente.
Um dia volto para o campo de vez e nunca mais penso na engenharia que tão pouca felicidade me trouxe. Quando digo isto ao meu pai, "dá-lhe" uma urticaria alérgica a ideias "alternativas". Ele que em novo fugiu da agricultura, e que depois de reformado, voltou para ela!

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Recomecei as caminhadas

É muito fácil deixar a preguiça instalar-se, quando o conforto do sofá está a dois passos e a obrigação de sair de casa, simplesmente não existe. Passamos a estar dependentes  da nossa força de vontade para nos mexer.

De manhã é o pai quem os leva à escola,  vão sempre a pé, ou de bicicleta na melhor das hipóteses. Os pedidos para irem de carro - vá lá, só hoje ... - que funcionavam muito bem com a mãe, com o pai não surtem o menor efeito. Faz frio de manhã,  as escolas não são propriamente  perto de casa e aperta um bocadinho o coração vê-los sair com aquela carinha de que não apetece mesmo nada ir a pé. Mas vão! O mais velho, que estava a ficar gordinho, emagreceu significativamente e voltou a vestir as roupas que já tinham deixado de servir, mas por pouco tempo porque os braços e as pernas crescem muito. O pai, também sente diferenças e se no início era difícil o percurso, agora já não sente qualquer dificuldade. Faltava a mãe, que se acomodava à pouca vontade de sair de casa. Quantas menos vezes se saí, menos apetece sair.

Hoje retomei as caminhadas.
Logo pela manhã, logo a seguir ao pequeno-almoço !
Uma hora, sempre a andar bem, o mais depressa que consigo.
Primeiro o frio, depois o sol quente, depois a troca de duas palavras com uma amiga que encontrei por acaso. Soube bem!
Amanhã, quero mais!


terça-feira, 15 de novembro de 2016

As nossas escolas - parte 1

Somos o país europeu com mais horas de aulas semanais, somos o país europeu, onde mais se reprova. As nossas crianças saem de casa, quando os pais vão trabalhar e só regressam a casa quando os pais regressam também. Os pais trabalham, chegam a casa e entre banhos, TPC e jantar, passa a noite,  sem sobrar tempo ou qualidade de vida.

Pela manhã os pais saem de casa já cansados, e os meninos , em muitos casos, saem de casa   com um pequeno almoço demasiado calórico, demasiado açúcarado, rico em amido e em gorduras; pobre em proteínas e vitaminas. Vão de carro, não se mexem, não consomem a energia que ingeriram, chegam à escola  exigem-lhes que se sentem e assim permanecem durante muito tempo,  caladas, atentas e sossegadas! Elas não conseguem, precisam de se mexer, precisam de correr, de brincar, de gritar de serem crianças. Não podem, dão-lhes ritalina - o medicamento do momento - e elas acalmam, aquietam-se no seu lugar e não chateiam mais.

Os meninos também têm as actividades, que funcionam como um escape às consciências dos nossos dias, os meninos fazem desporto, vão às aulas de música, vão ao inglês, portanto está tudo bem ... parece que controlando todos os seus passos vamos ter adultos bem moldados à sociedade e profissionais competentes, pro-activos, assertivos e  bem sucedidos, já para não falar nas festas de aniversário onde tudo é organizado no mais pequeno pormenor, para que as crianças se divirtam ... será?

Já ninguém corre na rua, no parque sem que os pais gritem que se sujam, que se magoam, que vão magoar alguém ... que qualquer catástrofe iminente vai acontecer. Tudo é almofadado para que as nossas crianças não esfolem os joelhos. Os jogos de lutas e de armas que aterrorizam os adultos, são muitas vezes proibidos por ideologias que esperam formar adultos pacíficos. Ainda ontem eu ouvia um apelo do Prof. Carlos Neto para que deixem as crianças brincarem ás lutas e ás guerras porque ao contrario do que se pensa, o contacto físico nestas brincadeiras dá-nos consciência do "outro" e ensina-nos a perceber e a respeitar o próximo. Ensina-nos a fragilidade e torna-nos adultos mais conscientes.

Se vos interessar o tema recomendo esta entrevista, ao Prof. Carlos Neto  http://observador.pt/especiais/estamos-a-criar-criancas-totos-de-uma-imaturidade-inacreditavel/  . Leiam se puderem, é extensa, mas vale a pena, porque põe o dedo na ferida.
Aos avós, que dão cabo dos nervos dos pais com tantos cuidados e advertências, leiam por favor ...

Sim, é uma indirecta cá para casa =)






sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Ai, Mr Trump, mr Trump , nem sei o que lhe diga ....

Surpreendeu-me quando ainda fazia campanha a popularidade dos seus disparates, mas nunca imaginei que ganhasse as eleições ... O que antes eram disparates que preenchiam jornais, agora são preocupações reais e perigosas.

Fica a esperança que desiluda tantos os seus eleitores, como desiludiu Obama ... que falhe nas propostas eleitorais como falharam muitos outros ... afinal, a campanha é espectáculo, degradante por vezes, mas é espectáculo e o que se faz ou se diz, não é para levar muito a sério. Esta esperança ainda mantenho! Mesmo com maiorias, eles não governam sozinhos. Com os governos, governa toda uma elite financeira e um conjunto de interesses e lobbies muito poderosos. No meio desta gente toda, que alguém mantenha o bom senso!

Senhor da Cara cor de laranja, peço-lhe: não faça muitos disparates ...


terça-feira, 8 de novembro de 2016

check list

Quando fiquei desempregada,  criei o blog e esta foi uma das primeiras mensagens que publiquei, - entretanto apaguei todas as mensagens e comecei de novo.  Tratava-se de uma lista de prioridades, revi-a agora e deu uma enorme vontade de rir.
Quanta ingenuidade ... tanta ilusão!
Vou publicar na integra:



«
-  Prioridades:

 Fazer o CV - pelo menos actualiza-lo, melhora-lo ... dar-lhe um ar mais apelativo, para que as empresas pensem : "como foi que sobrevivemos sem ela?" - risota.

 Fazer uma pesquisa a ver como param as "modas". Quais as ofertas de emprego na minha área? Quais as empresas que interessam? Qual o nível de salários que estão a praticar?

3º Matricular-me num ginásio: já está escolhido, é só lá ir!

 Anular os ATL´s das crianças

  Aproveitar todo o tempo para estar com os meus meninos

 deixar de passar na pastelaria de manhã para beber o cafézinho e comer o bom do pastel de nata, ou do mil folhas, ou do jesuíta ... ou da bolinha de berlim ... esta raras vezes entra no repasto, mas está no top das preferencias ...

 Organizar a casa ... este item vai dar pano para mangas

 Começar a ler as (provavelmente) dezenas de livros que fui comprando, mas que nunca ouve tempo para os ler.

 Avançar como uma auto-formação em várias áreas.

10º Aproveitar para descansar a cabecinha e os neurónios trabalhadores.

Data limite para alcançar os objectivos: Final do ano, altura em que espero já estar novamente a trabalhar.

» 
Em minha defesa posso dizer que realizei todos os tópicos, excepto a data limite para alcançar os objectivos, era no final do ano, mas esqueci-me de dizer qual. Talvez seja este, nunca se sabe ...

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Dona Isabel

Vivo neste prédio há muitos anos ... todos os casais que aqui vivem são da mesma geração e entre os mais novos e os mais velhos não haverá uma diferença de idades superior a uns dez anos: os mais novos devem andar pelos trinta e poucos e os mais velhos pelos quarenta e qualquer coisa.

-Bom dia dona Isabel!
- Não ... não, por favor não me chame dona !!...  Isabel, trate-me por Isabel!!

Foi assim nos primeiros tempos e continua assim, uns bons anos  depois. Já repeti o pedido vezes sem conta, já me cansei, já deixei de o fazer com tanta frequência e  já nem estranho muito o tratamento.

Agora devolve-lo é que é difícil !! Assim que quero dizer o "dona" a língua enrola-se no "D", os olhos começam a piscar no "O" e  no "N" já falta a respiração .... o "A" nunca chega a sair. É sempre um som estranho que sai da minha boca, quando digo o nome das senhoras cá do prédio.
Na  reunião de condomínio, é um rodopio de "donas" para aqui, "donas" para ali ... e eu a querer dizer alguma coisa ... e eu consciente da minha dificuldade, e o "dona" que não sai.

Se vos disser que entre estas "donas" já se confessaram tristezas e partilharam alegrias da vida de cada uma ... o "dona" ainda fica mais estranho ...



quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Diário da horta

É um terreno razoavelmente grande com muitas e  diversificadas árvores de fruto, um furo de água e uma terra que não é de grande qualidade para a horta, mas dá-se um jeito.
Há já alguns anos, é de lá que vem grande parte dos legumes e frutos que consumimos, nem se tratava de uma questão económica, apesar de ultimamente reconhecer que faz alguma diferença no orçamento familiar. Produzir numa horta, nem sempre é tão economicamente viável como se pode imaginar ... há a conta da luz, porque para tirar água do furo é preciso uma bomba eléctrica, há a compra anual das sementes - temos algumas que guardamos de uns anos para os outros, mas as sementes novas que se compram são praticamente estéreis na segunda geração, pelo que não se podem aproveitar  para semear novamente. Há ainda a fertilização do terreno, neste caso é um terreno muito pobre, que precisa de cuidados especiais na fertilização e na forma como é cultivado; há o gasóleo, seguros e manutenção do tractor e ainda há sempre algum imprevisto. Não fossem os pais os mentores da horta e para nós não seria viável mantê-la, pelo menos com esta dimensão e variedade.

Mas sabe tão bem ir à horta!!



Molho de tomate

Nesta altura só os dióspiros têm fruto, pelo fresquinho da manhã apanhados e comidos na hora têm um sabor que nos enche o estômago e a alma. Tenho que comprar açúcar para fazer doce de dióspiro.

Começamos a apanhar as primeiras couves portuguesas, bróculos e feijão verde (segunda leva). Os tomates já acabaram, este ano a produção de tomate foi muito fraca aqui na horta, mesmo assim deu para fazer doce, molho de tomate que congelei aos cubos e este da foto que ficou em frascos, e ainda muito congelado inteiro.
As cebolas já estão encabadas ( cabos de cebolas feitos em trança) esperamos que à semelhança de anos anteriores cheguem para o ano inteiro.
As nozes também já foram apanhadas, mas ainda estão a secar, as da imagem são do ano passado.

O trabalho da horta nunca pára e a apanha da azeitona está para breve.
Também chegaram novos pintos à capoeira e morreram duas galinhas poedeiras, a produção de ovos está em baixa .

Em projecto temos idealizado um secador solar para a fruta, é enorme a quantidade de fruta que se estraga todos os anos, que desidratada poderá ser consumida fora da sua época de produção.

Este é o diário da horta, uma ajuda, ou uma terapia grátis para descontrair das ansiedades do quotidiano.  Por estes dias continua o envio de CVs, alguns entregues em mão por amigos, são esses que nos dão mais esperança. E viva o país das cunhas que sempre critiquei ...

P.S. Há dois anos escrevi este texto sobre a horta, já muita coisa mudou desde então.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Histórias maravilhosas que não se contam, porque fazem corar


O rapazinho apaixonado por B.D. , lê os livros como quem come pipocas, uns atrás dos outros. Lê-os várias vezes, muitas vezes e de todas ri à gargalhada. Volta atrás, volta a ler as partes mais cómicas, e ri novamente como se estivesse a ler pela primeira vez, depois corre com o livro na mão e lê para quem estiver por perto. As palavras cortadas pelas gargalhadas fazem com que pouco se perceba. Mas ele diverte-se!

Quando era mais pequeno, perguntavam-lhe:
- Livro?
- Não, carrinho!! - dizia carregando e arrastando os Rs.
Parecia que não vinha a ser um grande leitor.

Engano, encantou-se com B.D.

Entretanto, quiseram dar-lhe outro tipo de livros:
- Não, tem demasiadas letras e poucos bonecos!
 - Está bem ...

Mas no aniversário deram-lhe um livro do tipo calhamaço - Illuminae - que leu numa semana. Estava na hora e como quem não quer a coisa, veio da biblioteca o livro " A história de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar". Leu o livro de uma só vez, e quando pensavam que já estava na cama, entrou na sala com olhos chorosos e o livro na mão.
- Já li ...
- O que se passa?
- Eu não sei como acaba o livro ....

As lágrimas soltaram-se e o rapazinho que adora jogar, jogos malucos e violentos, onde se mata e se rouba, onde não existe moral  que vê filmes que  tirariam o sono a muitos adultos, chora como uma Madalena arrependida porque não sabe se o gato voltou a ver a gaivota.

- Como é que eu sei se a gaivota não voou para longe e o gato nunca mais a viu? O livro não diz ...
As palavras são ditas com dificuldade e cortadas por soluços difíceis de controlar ...

Ora, quem diria ...




quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Duas aventesmas aqui em casa

Não escrevo muito no blog, senão seria sempre a mesma conversa e o que é demais enjoa ... cansa!

Hoje estou em dia não, baralham-se-me os circuitos neurológicos ver-nos aos dois aqui em casa, a andar de um lado para o outro como duas almas penadas sem um objectivo na vida. Já nem lhe pergunto se enviou algum CV, se viu alguma proposta de emprego interessante, ou se teve alguma ideia, sei qual seria a resposta! Provavelmente até viu qualquer coisa, provavelmente até enviou o CV, mas,  e daí?  Nada de novo! Eu  fiz a minha pesquisa, hoje não enviei CVs, mas enviei ontem e anteontem e no outro dia.  Não há repostas, acredito que os quarentas já entrados, alguns anos sem trabalho e a procura de trabalho qualificado, os assuste!

Quando fiquei desempregada enviei - não quero mentir - mas acho que mais de uma centena de CVs, fui a muitas entrevistas, cheguei a ouvir sins para projectos que entretanto foram cancelados.

Estávamos em plena troika, o marido tinha um emprego que dava segurança, e eu concluí que não conseguia voltar a ter um emprego como o de antes, assim, mais valia ficar em casa a tomar conta dos filhos. Este ano a empresa do marido fechou e eu paguei caro uma decisão que parecia certa noutros tempos, mas muito perigosa por estes dias.  Parece que já deixei passar o meu tempo, parece que já não tenho lugar nestes tempos, já nem me chamam para entrevistas.

Amanhã vou ver como me posso inscrever nuns cursos que quero fazer ... tento todos os dias inventar coisas que me agarrem aqui ao meu espaço, mas sei que vou ter que largar tudo e ir para fora. Sei que vou ter que deixar os pais, quando eles começam a precisar de mim; sei que vou arrancar os meus filhos do seu conforto e sem rede nem corda de segurança, ir para um mundo que nos é desconhecido, que me assusta. Muitos colegas já foram, e provavelmente também nós iremos ... mas não quero, não quero mesmo!!

Tenho que escrever mais no blog, exorciza-me os maus pensamentos e ao escrever o titulo do post até dei uma gargalhada.


quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Centro de emprego, desta vez foi diferente

 
  Era uma sala cheia de gente, não conhecia ninguém ... e aqui num aparte, acho que deveria ter estudado sociologia, estaria desempregada na mesma e pelo menos seria um curso que me teria dado muito prazer tirar ... fiquei no meu canto, encantada a observar as "gentes". Outro aparte, observar não é coscuvilhar, esclarecido este ponto que me parece de importância vital, para que não fiquem com más impressões minhas, continuei encantada pelas várias reacções, pelas várias emoções que as expressões faciais demonstravam; havia os desencorajados que diziam mal da vida, que perderam as esperanças, que já tinham testado o sistema, que que sabem que funciona mal ... muito mal. Havia os esperançosos, desempregados há pouco tempo ... e que acreditam que é apenas uma fase e alguma coisa vai acontecer  e os reencontros: sim! os que trabalharam na mesma empresa e que depois de muito tempo sem se verem, reencontram-se na sala do centro de emprego. Foi uma felicidade no meio de muita desesperança, saber dos filhos, da vida do que se tem feito. Pertinho de mim, quase no mesmo canto, dois conhecidos, aconselhavam-se mutuamente em estratégias de alcançar a reforma próxima ... faziam contas aos anos de trabalho, às penalizações das reformas antecipadas, definiam planos e traçavam objectivos - os possíveis dadas as circunstâncias
   Já sentados, alguém se queixou de ser demasiado qualificada, enfatizando parte do percurso profissional, não consegui disfarçar o sorriso que foi ligeiramente sonoro e fez o vizinho do lado voltar a cabeça na minha direcção - amiga, para ganhar 500 euros, somos todos demasiados qualificados - não disse, mas pensei. Normalmente as audiências são heterogéneas, desde a 4ª classe até à licenciatura, este tipo de comentários faz voltar a cabeça para ver quem é o dr.  Nesta reunião surtiu pouco efeito, a maior parte eram licenciados, ninguém voltou a cabeça, eu sorri, provavelmente outros também. Aposto que está desempregada à pouco tempo, ainda sente necessidade de explicar que não merece o que lhe aconteceu, que era boa profissional, que ainda pensa que o desemprego prolongado é coisa de preguiçosos de gente com poucas "vontades". que quer acreditar que é diferente, que não pertence aquele mundo. Também passei por essa fase, mas o tempo cura-nos as manias todas ... 

    E foi assim o dia de responder à convocatória para ir ao Centro de Emprego. Durante todo este tempo, já foram várias as cartas que recebi, com o tempo deixei de lhes dar crédito e só vou para que não me cortem a inscrição, porque o subsídio já acabou há que tempos. Mas desta vez e contra todas e quaisquer expectativas, foi interessante. Não vim com um emprego de lá, mas isso de conseguir emprego não é tarefa que alguém faça por nós ... só se tivermos sorte, mas não me parece algo fácil de acontecer.  

   Fomos a uma sessão de esclarecimento sobre os vários apoios e programas que existem para auxiliar a procura de emprego, eu já entrei na fase "negativa" por isso sei que a maior parte não funciona, mas houve um ou outro que me deixou curiosa. Por exemplo se alguém tiver um projecto que ache viável mas não avance com ele, porque simplesmente não sabe por onde começar, há entidades oficiais que ajudam no arranque, que aconselham, que informam as questões legais e até auxiliam no financiamento. É o gabinete de apoio ao empreendedorismo e está ligado ao centro de emprego e às Câmaras Municipais - nesta autarquia
   Fiquei a pensar no assunto e de certeza que vou voltar com algumas questões e para pedir alguns conselhos, a quem sabe disto mais do que eu e até me possa mostrar um prisma diferente daquele que a minha visão consegue alcançar neste momento. 
  É que a minha visão anda turva, não consegue ver o horizonte muito brilhante ...

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Dias sem nada de jeito para escrever no blogue

Hoje foi dia de exames! A palavra exames é um aparato para o que foram apenas provas de aferição sem valor na nota.

Mas os pequenos ficam sempre nervosos, eu acho que lhes faz bem, cria resistência à adrenalina que outros exames mais importantes irão causar pela vida fora, por outro lado faz pena vê-los tão pequenos e tão frágeis perante tamanha e dolorosa tarefa. Cá de casa foram dois, o mais novo e o mais velho. O mais novo, muito inseguro, mas ainda sem a noção da responsabilidade do que será fazer um exame. O mais velho, já com a experiência dos exames do ano passado, que lhe correram muito bem, com boas notas, vai seguro e só um bocadinho nervoso. Já falamos depois da prova e à pergunta - como correu? - a reposta foi "per-fei-to!" O mais novo, ainda pequenote, vai na boa, sem nervos nem preocupações ou responsabilidades.

Eu, continuo a tentar descobrir o meu Plano B, para já dediquei o dia a actualizar o curriculum, mas sem ter mais nada para lhe acrescentar, acabei por simplifica-lo e tirar algumas competências para o tornar mais generalista em vez de muito vocacionado para uma área. Não é tarefa fácil, conseguir um emprego depois de alguns anos em casa, mas tarefa ainda mais difícil é ficar em casa sem reagir ao que nos aconteceu.

Há dias de medo e há dias de optimismo ... hoje é um misto desses dois, valha-nos o optimismo do marido!!





terça-feira, 31 de maio de 2016

Plano B

Parece que foi a semana passada que criei este blog, parece que ainda ontem escrevia por aqui, no entanto já passou mais de um ano desde o último post. Não vou falar do tempo que passa a correr, não vou falar do mal/bem que ele nos faz, mas, hoje e depois de uma noite mal dormida, apeteceu-me voltar à blogosfera. E aqui estou, espero que ainda se lembrem de mim :)

E agora somos dois!
Antes era só eu, desempregada!
E se para mim o desemprego começou por ser um contratempo, acabou por ser uma opção quando verifiquei que já não voltaria a ter outro emprego com as condições do que perdera. E do mau se fez bom, a vida mudou muito, não necessariamente para pior. Passamos a ter mais tempo, para nós e para as crianças . Vi-os crescer e foi tão bom! Cada sorriso, cada ida ao parque, cada descoberta era o meu ordenado ao fim do mês. Foi tão bom, fui mãe a tempo inteiro.
   
As vezes sentia-me só, todos trabalhavam, as crianças na escola e não havia ninguém com quem partilhar tanto tempo livre. Criei um blog ...escrevi muitos textos e apaguei-os todos por serem demasiados intímos . De repente, quando a vida se equilibrou e parecia que ia ser assim para sempre e ia ser bom, a cara-metade perdeu o emprego. Voltamos ao inicio, voltamos à casa de partida, ao ponto onde nunca estivemos.
Talvez amanhã apague este texto por ser demasiado íntimo, mas hoje é um grito que precisa de sair em silêncio é o cair para levantar, porque amanhã começa o meu plano B que ainda não foi pensado, nem definido, mas que há-de existir algures.