segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Dona Isabel

Vivo neste prédio há muitos anos ... todos os casais que aqui vivem são da mesma geração e entre os mais novos e os mais velhos não haverá uma diferença de idades superior a uns dez anos: os mais novos devem andar pelos trinta e poucos e os mais velhos pelos quarenta e qualquer coisa.

-Bom dia dona Isabel!
- Não ... não, por favor não me chame dona !!...  Isabel, trate-me por Isabel!!

Foi assim nos primeiros tempos e continua assim, uns bons anos  depois. Já repeti o pedido vezes sem conta, já me cansei, já deixei de o fazer com tanta frequência e  já nem estranho muito o tratamento.

Agora devolve-lo é que é difícil !! Assim que quero dizer o "dona" a língua enrola-se no "D", os olhos começam a piscar no "O" e  no "N" já falta a respiração .... o "A" nunca chega a sair. É sempre um som estranho que sai da minha boca, quando digo o nome das senhoras cá do prédio.
Na  reunião de condomínio, é um rodopio de "donas" para aqui, "donas" para ali ... e eu a querer dizer alguma coisa ... e eu consciente da minha dificuldade, e o "dona" que não sai.

Se vos disser que entre estas "donas" já se confessaram tristezas e partilharam alegrias da vida de cada uma ... o "dona" ainda fica mais estranho ...



quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Diário da horta

É um terreno razoavelmente grande com muitas e  diversificadas árvores de fruto, um furo de água e uma terra que não é de grande qualidade para a horta, mas dá-se um jeito.
Há já alguns anos, é de lá que vem grande parte dos legumes e frutos que consumimos, nem se tratava de uma questão económica, apesar de ultimamente reconhecer que faz alguma diferença no orçamento familiar. Produzir numa horta, nem sempre é tão economicamente viável como se pode imaginar ... há a conta da luz, porque para tirar água do furo é preciso uma bomba eléctrica, há a compra anual das sementes - temos algumas que guardamos de uns anos para os outros, mas as sementes novas que se compram são praticamente estéreis na segunda geração, pelo que não se podem aproveitar  para semear novamente. Há ainda a fertilização do terreno, neste caso é um terreno muito pobre, que precisa de cuidados especiais na fertilização e na forma como é cultivado; há o gasóleo, seguros e manutenção do tractor e ainda há sempre algum imprevisto. Não fossem os pais os mentores da horta e para nós não seria viável mantê-la, pelo menos com esta dimensão e variedade.

Mas sabe tão bem ir à horta!!



Molho de tomate

Nesta altura só os dióspiros têm fruto, pelo fresquinho da manhã apanhados e comidos na hora têm um sabor que nos enche o estômago e a alma. Tenho que comprar açúcar para fazer doce de dióspiro.

Começamos a apanhar as primeiras couves portuguesas, bróculos e feijão verde (segunda leva). Os tomates já acabaram, este ano a produção de tomate foi muito fraca aqui na horta, mesmo assim deu para fazer doce, molho de tomate que congelei aos cubos e este da foto que ficou em frascos, e ainda muito congelado inteiro.
As cebolas já estão encabadas ( cabos de cebolas feitos em trança) esperamos que à semelhança de anos anteriores cheguem para o ano inteiro.
As nozes também já foram apanhadas, mas ainda estão a secar, as da imagem são do ano passado.

O trabalho da horta nunca pára e a apanha da azeitona está para breve.
Também chegaram novos pintos à capoeira e morreram duas galinhas poedeiras, a produção de ovos está em baixa .

Em projecto temos idealizado um secador solar para a fruta, é enorme a quantidade de fruta que se estraga todos os anos, que desidratada poderá ser consumida fora da sua época de produção.

Este é o diário da horta, uma ajuda, ou uma terapia grátis para descontrair das ansiedades do quotidiano.  Por estes dias continua o envio de CVs, alguns entregues em mão por amigos, são esses que nos dão mais esperança. E viva o país das cunhas que sempre critiquei ...

P.S. Há dois anos escrevi este texto sobre a horta, já muita coisa mudou desde então.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Histórias maravilhosas que não se contam, porque fazem corar


O rapazinho apaixonado por B.D. , lê os livros como quem come pipocas, uns atrás dos outros. Lê-os várias vezes, muitas vezes e de todas ri à gargalhada. Volta atrás, volta a ler as partes mais cómicas, e ri novamente como se estivesse a ler pela primeira vez, depois corre com o livro na mão e lê para quem estiver por perto. As palavras cortadas pelas gargalhadas fazem com que pouco se perceba. Mas ele diverte-se!

Quando era mais pequeno, perguntavam-lhe:
- Livro?
- Não, carrinho!! - dizia carregando e arrastando os Rs.
Parecia que não vinha a ser um grande leitor.

Engano, encantou-se com B.D.

Entretanto, quiseram dar-lhe outro tipo de livros:
- Não, tem demasiadas letras e poucos bonecos!
 - Está bem ...

Mas no aniversário deram-lhe um livro do tipo calhamaço - Illuminae - que leu numa semana. Estava na hora e como quem não quer a coisa, veio da biblioteca o livro " A história de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar". Leu o livro de uma só vez, e quando pensavam que já estava na cama, entrou na sala com olhos chorosos e o livro na mão.
- Já li ...
- O que se passa?
- Eu não sei como acaba o livro ....

As lágrimas soltaram-se e o rapazinho que adora jogar, jogos malucos e violentos, onde se mata e se rouba, onde não existe moral  que vê filmes que  tirariam o sono a muitos adultos, chora como uma Madalena arrependida porque não sabe se o gato voltou a ver a gaivota.

- Como é que eu sei se a gaivota não voou para longe e o gato nunca mais a viu? O livro não diz ...
As palavras são ditas com dificuldade e cortadas por soluços difíceis de controlar ...

Ora, quem diria ...




quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Duas aventesmas aqui em casa

Não escrevo muito no blog, senão seria sempre a mesma conversa e o que é demais enjoa ... cansa!

Hoje estou em dia não, baralham-se-me os circuitos neurológicos ver-nos aos dois aqui em casa, a andar de um lado para o outro como duas almas penadas sem um objectivo na vida. Já nem lhe pergunto se enviou algum CV, se viu alguma proposta de emprego interessante, ou se teve alguma ideia, sei qual seria a resposta! Provavelmente até viu qualquer coisa, provavelmente até enviou o CV, mas,  e daí?  Nada de novo! Eu  fiz a minha pesquisa, hoje não enviei CVs, mas enviei ontem e anteontem e no outro dia.  Não há repostas, acredito que os quarentas já entrados, alguns anos sem trabalho e a procura de trabalho qualificado, os assuste!

Quando fiquei desempregada enviei - não quero mentir - mas acho que mais de uma centena de CVs, fui a muitas entrevistas, cheguei a ouvir sins para projectos que entretanto foram cancelados.

Estávamos em plena troika, o marido tinha um emprego que dava segurança, e eu concluí que não conseguia voltar a ter um emprego como o de antes, assim, mais valia ficar em casa a tomar conta dos filhos. Este ano a empresa do marido fechou e eu paguei caro uma decisão que parecia certa noutros tempos, mas muito perigosa por estes dias.  Parece que já deixei passar o meu tempo, parece que já não tenho lugar nestes tempos, já nem me chamam para entrevistas.

Amanhã vou ver como me posso inscrever nuns cursos que quero fazer ... tento todos os dias inventar coisas que me agarrem aqui ao meu espaço, mas sei que vou ter que largar tudo e ir para fora. Sei que vou ter que deixar os pais, quando eles começam a precisar de mim; sei que vou arrancar os meus filhos do seu conforto e sem rede nem corda de segurança, ir para um mundo que nos é desconhecido, que me assusta. Muitos colegas já foram, e provavelmente também nós iremos ... mas não quero, não quero mesmo!!

Tenho que escrever mais no blog, exorciza-me os maus pensamentos e ao escrever o titulo do post até dei uma gargalhada.