sexta-feira, 17 de março de 2017

As caras das corridas

 As corridas diárias já são um habito instalado. Foi difícil, muito difícil de inicio. Havia avanços e recuos, havia alturas que com uma convicção inabalável me empenhava na disciplina, outros períodos, muito longos, em que a preguiça se instalava e não havia força motriz que me arrancasse do conforto da casa e me levasse para o ar fresco da rua. Não havia! Por isso compreendo perfeitamente quem me diz - preciso tanto de fazer desporto, mas ... - percebo, há sempre um mas ... um malvado, mas ..., pouco importante no conteúdo, mas que faz muitos estragos. No entanto,   ultrapassada a fase da habituação, não quero outra coisa, faz-me bem!

Depois das crianças saírem para a escola, eu saio também. O percurso não varia muito, e ao fim de algum tempo vamos conhecendo as caras de tantas vezes que nos cruzamos com elas. A esta hora são maioritariamente "avós" ; uns em grupo outros solitários. Há também gente mais nova, mas não são assim tantos. Habituo-me a estas caras e ao fim de algum tempo já trocamos "bons-dias".

Quando as caras deixam de aparecer, fica uma ruga cravada na testa ... uma interrogação, como não sei os nomes arranjo-lhes alcunhas.

Havia uma senhora que corria de chinelos quer fosse verão ou inverno, impressionava-me o facto e sentia uma vontade enorme de lhe oferecer uns ténis, nunca o fiz por vergonha e por ter a noção que podia levar "uma corrida em osso" caso a minha boa vontade fosse confundida com um paternalismo qualquer. Deixei de a ver ... por onde será que anda? Será que corre noutro lugar? Será que lhe fazia falta os ténis?

Havia o senhor do passo miúdinho. Imagino que teria mais de 80 anos,  corria com um passo muito miudinho, quer fosse subida ou descida, nunca parava, sempre aquele passo pequenino e sincopado. Houve um período em que deixei de ir, quando voltei já não o vi mais.

Havia a senhora do cão, mais ou menos da minha idade, cruzamo-nos algumas vezes e "mete-mos" conversa, por conta do aviso de um casal de idosos que um homem nú estava escondido nas caneiras. Não vimos ninguém,  mas rimos um bom bocado. Sei que é casada, sei que não tem filhos, mas o cão é como se o fosse, sei que trabalha por turnos ... só não sei o seu nome. Combina-mos encontrar-mos no café, para fazer a caminhada juntas - ela diz que não consegue correr  -  Eu não apareci, porque estava a chover e nunca mais a vi.

Também havia a senhora indiana que vestia um sari, muito tímida, baixava sempre os olhos quando passava por mim, eu que também não sou muito extrovertida, limitava-me a um sorriso e pensava : -um dia digo-lhe "bom dia!" - Nunca disse nada e um dia, a senhora do sari, deixou de aparecer.

Há também um grupo de avós que intervalam a caminhada com um merecido descanso no banco do jardim e se deixam ficar à conversa.

Há imensas caras, imensas vidas que se cruzam assim, tão superficialmente com as nossas. Há quem corra com os fones nos ouvidos, absorto pela música e por pensamentos, eu gosto de correr desperta pela vida que corre a meu lado.

14 comentários:

  1. É bom, correr, caminha e ainda poder divagar, refletir sobre cada uma das pessoas que se encontra,mesmo sem as conhecer! Lindo fds! bjs, chica

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  2. Isabel,é engraçado! Inventamos filmes a partir da realidade. Não corro. Não quero nem gosto. Mas adoro caminhadas aqui, junto ao meu mar.

    O pão de ló, mesmo sem Bimby é excelente e estou quase a fazer outro.
    Beijo

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  3. Eu, tb agora corro, com os meus netos. Eles gostam eu tb. E salto à corda.
    Kis :=}
    BFSEMANA

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  4. Boa! Mais uma companheira de corrida?
    Eu adoro correr, corria quase sempre sozinha quando estava em Lisboa, durante 10 anos corri no estádio universitário, depois evolui para o Monsanto, agora aqui em Leiria a coisa complicou-se mas, continuo a ir, mesmo quando não vou acompanhada...
    Continua, vai-me acompanhando, qualquer dia encontramos-nos numa corrida, beijinhos

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  5. É engraçado vermos as pessoas e imaginarmos o que é a vida delas :) eu detesto correr, fico-me pelas aulas de grupo! Motiva-me mais :P

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  6. Não gosto de correr, mas faço (fazia) caminhadas. Sempre com o marido ou com colegas. Também reparamos nas pessoas que passam por nós e é giro encontrar algum pormenor que nos desperte a atenção.:) Também sou tímida e é muito raro dizer boa tarde, boa noite... como vou acompanhada não sinto tanto essa necessidade de aproximação. Mas percebo que é muito mais divertido e o tempo passa mais depressa quando vamos com alguém. :)
    Adorei o post e vamos lá dizer não à preguiça - falo por mim, rs... andei tanto, parei um tempo e agora para recomeçar está difícil... :(
    Beijinho grande, Isabel, e... boas passadas!

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  7. Eu gosto de caminhar ... admirar ... registar e sentir sem me importa se quem passa ... leva o mesmo caminhar!
    Quem vai a meu lado ... aí sim ... estou bem atenta!!!bj

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  8. Olá, Isabel!

    Pois, efetivamente, já não nos visitávamos há uns tempinhos, mas, diz o provérbio, que quem se quer bem, sempre se encontra, o que não tem sido o seu caso com os "corredores", seus colegas de treino, de k fala no texto.
    Enfim, o mundo é mesmo assim. Há chegadas e partidas, mas o importante é continuar.

    Beijos e bom fim de semana.

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  9. Minha avó materna era
    Vivaz de sangue cigano
    Dizia que salvo engano
    Quando se tem um mera

    Dúvida atroz que impera
    Na alma do ser humano
    Para que o não cause dano
    Faça a dúvida uma quimera

    E assim dizia que à hora
    De sair se certa demora
    emperrasse sua mente

    Para a incerteza ir embora
    Resolva-se isso lá fora
    Caminhando e indo em frente.

    Grande abraço. Laerte.

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  10. Ando a precisara dessa força de vontade, dessa disciplina.
    Mas a preguiça tem ganho essa guerra.
    Boa semana

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  11. Pois eu voltei ás caminhadas, só ao fim de semana que durante a semana não dá tempo.
    Correr... ainda não, nem mesmo com passinhos pequenos!

    Gostei do teu texto.
    Beijinhos
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  12. Também retomei as caminhadas, há semanas que corre bem e vou quase todos os dias, mas há outras ... :)
    beijinhos

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  13. Olha, mais outra coisa que temos em comum, as corridas :) Correr faz bem, "mata" o colesterol e levanta a moral. Eu andei lesionada uns dois meses e recomecei devagar na semana passada. Agora vou com mais calma. Mas vou compensando com umas caminhadas. E com a horta :)
    É engraçado ver as pessoas que vamos encontrando sempre que vamos para o mesmo local. Mas a sensação que eu fico é que as pessoas já não estão muito disponíveis para novos conhecimentos e conversas. Sei lá, pode ser só impressão minha.
    Beijinhos :*

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  14. Ainda não consegui mentalizar-me para fazer dessas corridas um hábito.

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